19 novembro 2017

Das conversas de viagens

O Burnay de Meirelles ensinou-me numa ocasião, era uma dessas noites de fado vadio e degustações de whiskeys de estranhos rótulos, que não há melhor conversa que a conversa de viagens, basta que os conversadores sejam pessoas de bem, que escutem com atenção o viajante que lhes fala de terras que até podem não ser muito estranhas nem muito longe, que o escutador feche os olhos e se deleite com o que está a ouvir, interrompendo só para acrescentar um pormenor que estabeleça uma ponte para uma nova história, este novo contador falará do que viu, as histórias falarão de pessoas mais do que lugares, e esses, os lugares, que sejam de lugares que mais ninguém viu, afinal as histórias dos lugares que toda a gente conhece já todos as conhecemos, mas, resumindo, o que de mais valor me ensinou o Burnay de Meirelles foi recomendar-me que nunca, por motivo algum, qualquer que seja o pretexto, converse sobre viagens com aqueles que são apenas turistas.

(baseado numa coisa que a Palmier nos disse um destes dias)

18 novembro 2017

Caminho para a felicidade

Nunca troques o nome de uma mulher quando conversas com ela, nunca resolvas um problema por mail, nunca comas dois croissants do Careca seguidos, nunca te atrases para a primeira reunião do dia, nunca ouças This Mortal Coil enquanto lês Florbela Espanca, nunca vás ao Belcanto sem teres mesa reservada, nunca acredites quando te dizem que estás mais magro, nunca corras à noite quando almoçaste na Bairrada, nunca estaciones num lugar para deficientes, nunca discutas com quem começa as frases por "é assim", nunca leias Bukowski antes de um post das Capazes, nunca dês terceiras oportunidades, nunca marques férias de neve se não estiver a nevar, nunca dês os parabéns a um amigo sem ser de viva voz, nunca valorizes muito o que se escreve nos blogues, nunca formes uma opinião sobre um tema fracturante sem deixar passar dois dias, nunca dês nada por certo.

12 novembro 2017

Fechando o assunto com a minha grande chave de oiro reluzente cravejada de diamantes

Agora a sério, sem irem ver ao Google, quem são os ilustres cujos restos repousam no átrio central do Panteão, lá onde se realizam os tais jantares?

10 novembro 2017

Abrindo o assunto com a minha grande chave de oiro reluzente cravejada de diamantes

Quer então dizer que lá por Hollywood não havia dessas pessoas que desprezavam os danos colaterais e faziam o que tinha que ser feito para conseguirem um papel melhorzinho lá nas películas dos que estavam dois degraus acima na cadeia alimentar?

08 novembro 2017

Das coisas que me atormentam

Desembarcarei daqui a pouco em Barcelona, sem saber se devo ou não adicionar mais um país à minha lista.

07 novembro 2017

Nem às boas, quanto mais...

"Um homem habitua-se, não é Doutor Pipoco?", lançou-me, esmorecido, duas garrafas de mini já esvaziadas e ainda não são nove da manhã, o homem antigo, queixando-se da má fortuna.

E eu, que tinha tempo, tentei convencê-lo que não, às más coisas um homem não tem que se habituar.

06 novembro 2017

04 novembro 2017

Nos últimos dias

Acabei de ler o livro de memórias de alguém que considero genial no seu mister mas não me lembro de quase nada. Para um livro de memórias, é mau sinal.

Devia ser obrigatório ir ver o filme "A paixão de Van Gogh". É uma pequena maravilha, principalmente se tiverem a sorte de a sala estar quase vazia e de ninguém estar a sorver refrigerantes ou a mastigar pipocas.

Fui convidado para o jantar de inauguração de uma pessoa.

Rodrigues dos Santos não é o melhor português, conforme diz lá na badana do livro novo, aconteceu é que ganhou um tal "Prémio Cinco Estrelas". O fiambre Izidoro também ganhou (e o fiambre Nobre é melhor), a Ford também ganhou (e a BMW é melhor) e até a Benfica TV ganhou (e a Sporting TV é incomparavelmente superior).

Creio que, além de mim, que li o primeiro livro, o de Timor, ninguém leu Rodrigues dos Santos, sucede que as pessoas compram para oferecer no Natal àqueles que não conhecem bem e que estão ali no escalão dos que merecem um presente até aos vinte euros, ou seja, oferecer Rodrigues dos Santos é um upgrade à oferta de cinco pares de meias de raquetas dos anos oitenta.

Afinal li mais dois Rodrigues dos Santos, os que tinham o Tomás de Noronha, que é uma espécie de Robert Langdon do Dan Brown. Mas também li um livro de memórias de que não me lembro de quase nada, por isso não esperem demasiado de mim.

02 novembro 2017

Qual será a primeira...

... a desejar que volte o tempo de sol, a dizer-nos que tanta chuva já é demais, para nós lhe caírmos todos na caixa de comentários a dizer-lhe que não há direito, tanta insensibilidade, a chuvinha faz cá muita falta, as barragens, a agricultura, e tal?

30 outubro 2017

Talvez...

... eu não saiba arrumar à primeira nos lugares do lado esquerdo, talvez não consiga ler letras muito pequenas, talvez já não aguente duas noites seguidas sem dormir, talvez já não seja paciente com todos a toda a hora, talvez já não conceda segundas oportunidades para uma primeira boa impressão, talvez desligue mais rapidamente quando a conversa não tem sentido, talvez já não goste tanto de Sepúlveda, talvez já não comece a leitura do Expresso pelo caderno de Economia, talvez tenha mais cuidado com o que como ao jantar, talvez já não acredite que conseguirei terminar Ulysses.

Mas, em verdade te digo, continuo a cozinhar o melhor arroz de corvina que podes imaginar.

29 outubro 2017

Fechando o assunto com a minha grande chave de oiro reluzente cravejada de diamantes

A sociedade civil mobiliza-se e oferece roupa e cobertores, os da Agricultura levam ração e fardos de palha a quem arderam os pastos, os bombeiros foram enormes, as populações lutaram até à exaustão, as pessoas de muito longe manifestam-se, o Presidente diz que estará atento, o Primeiro-Ministro anuncia dinheiro para todos.

Estamos todos de parabéns, menos nós.

Mais um que se fez à estrada

Este rapaz é especial. 

26 outubro 2017

Enquanto te manifestavas (4 - e último)

Amanhã à noite vou lá outra vez.

(e essas novas manifestações, já estão convocadas ou quê?)

25 outubro 2017

Enquanto te manifestavas (3)

Em chegando ao sítio, procura pelo Café Central e saúda quem lá estiver. Pergunta se sabem de alguém que precise de alguma ajuda e logo te dirão quem mais precisa e onde te deves dirigir, ninguém te dirá que ele próprio precisa do que quer que seja. Escuta as histórias que te vão contar, sem interromper. Notarás que ninguém se referirá ao que lhe aconteceu a si próprio, mas ao que aconteceu ao colectivo. Ouve de novo, ainda que seja a mesma história. Ouve outra vez. Resiste a dizer que agora é levar isto para a frente, que o que lá vai lá vai. Agradece e aperta a mão a quem lá estiver. Aperta mesmo a mão, ainda que te estendam só o pulso, envergonhados das mãos de trabalho duro. Convida alguém a acompanhar-te a onde vive quem precisa. Ouve de novo a história que te vão contar e interessa-te pelos pormenores, como foi que um salvou a casa atacando os pequenos focos com uma enxada, um por um, como foi que outro tirou a velha senhora que não se conseguia deslocar, como foi que um outro viu a casa do avô arder e ele a salvar o quartel dos bombeiros, o vale em chamas pelo meio. Se apenas ouvires, já fizeste bastante. Nota que te dirão que não é precisa mais comida nem mais roupa nem mais cobertores. Não penses que as pessoas são mal-agradecidas, as coisas são como são. Compra roupa interior, boinas, meias. Compra novo. Não culpes o governo, este ou outro qualquer, nem a protecção civil nem os bombeiros. Os que lá estão não culpam ninguém e eles sabem melhor do que tu destas coisas. Janta num restaurante local, mete o boletim do euromilhões na tabacaria da terra, compra o que tiveres que comprar nas lojas locais. Deixa café pago para os vinte que vierem a seguir, a dona do café que decida quem menos pode pagar aqueles cinquenta cêntimos. Volta pelo menos uma vez por mês, um ano seguido. De cada vez que lá fores, apanha pinhas e lenha em vez de comprar os briquetes (é assim que se escreve, não é?) na loja. Leva os teus filhos, os teus amigos, a tua família, e planta carvalhos e azinheiras e castanheiros. Planta onde te apetecer, na maioria dos sítios ninguém se vai importar. Exige saber para onde foi o teu dinheiro, o das contas solidárias e o dos impostos. Lembra-te que os milhões que o governo anunciou e que tanto te apaziguaram não são de mais ninguém senão teus, ainda que pareça que é dinheiro do estado ou de Bruxelas, não te esqueças que o estado e Bruxelas não têm dinheiro se tu não lho deres. Escreve aos deputados, ao Presidente da República, diz que sabes que o dinheiro é teu e tens o direito de saber para onde irá cada euro. Cada cêntimo.

E sim, manifesta-te se achas que é coisa de valor.

Enquanto te manifestavas (2)

Não fosse o carvalho grande ter ardido, era o carvalho a que eu subia no fim do Verão para ler os livros da Enid Blyton, e talvez eu tivesse ficado, havia de ponderar dar um salto à manifestação, ou se calhar não, afinal eu não tenho isso do facebook e ninguém havia de me convocar, se fosse havia de me exasperar a debater quantos lá estávamos, havia de suspirar e pensar "como é possível?" enquanto passavam as imagens do telejornal, é certo que talvez me aliviasse digitar uns valores em euros, ou então havia de seleccionar boa roupa, nada dessas limpezas de armário que nos livra de camisas fora de moda ou de casacos com um buraco pequenino, desses que quase não damos por eles, afinal um casaco com um buraco pequenino é melhor que casaco nenhum, é ou não é?

Mas deu-se o caso de ter ido e tu havias de ir também um dia destes ver aquilo com os teus olhos, enquanto o cheiro ainda se entranha na tua roupa, enquanto não tiram as carcaças dos carros da beira da estrada da Beira, enquanto a chuva não limpar os caminhos, havias de ir à noite, que é quando o fumo do que ainda arde se mistura com o nevoeiro, para te dar a ideia de como é conduzir sem ver, e tu podes ir devagar, eles não, tinham que andar depressa, e, chegando lá, já cá venho contar-te o que tens que fazer, não tenhas medo, as pessoas não mordem.

(podes sempre continuar a manifestar-te, é claro, aproveitas, tomas um café e compras um casaco dos bons, desses sem buraquinho)

24 outubro 2017

Enquanto te manifestavas

Eu fui lá.

(queres mesmo saber como é aquilo?)

16 outubro 2017

E tu?

Não há coisa mais deliciosamente potente que o deslumbre que sinto quando tenho diante de mim uma coisa realmente nova pela primeira vez.

(a viagem de avião para Dublin, a história do homem a quem parece que aconteceu não sei quê, La Fura dels Baus na Expo, o Sony CM-DX 1000, a televisão a cores na antiga FIL, o teleférico de Kandersteg, o beijo na gruta do Portinho da Arrábida, Saramago, a Borreguilles I, Live-Aid em directo, a bicicleta da Sobrinca sem rodinhas, o meu primeiro post que faz agora doze anos e me fez pensar nestas coisas)

15 outubro 2017

Ontem à noite

O tipo gritou lá do fundo do balcão do pub e quando eu olhei vi que o tipo era parecido com a voz que tinha, cabelo rapado e músculos de ginásio, não sei se é da minha imaginação, talvez seja, mas pareceu-me ver uma dessas tatuagens tribais que não querem dizer coisa nenhuma, a boca tinha aquela expressão do Chepe Santacruz sentado na cadeira do cabeleireiro a aviar os dominicanos.

Pediu um Bailey's.

12 outubro 2017

Anunciai a boa nova

De entre todos os meus rituais, uns mais excêntricos que outros, o que me vem de tempos mais recuados é a leitura de, pelo menos, um par de obras do Nobel da Literatura do ano, e com isto descobri Szymbrorska, Jelinek e Transtromer, para os esquecer quase de imediato, não precisei de reler Saramago nem Dario Fo nem Vargas Llosa, falhei Dylan propositadamente, que isto dos rituais sagrados também tem as suas excepções e, era isto que vos queria dizer, desde Pamuk não me deslumbrava tanto com um Nobel da Literatura como me está a deslumbrar este Ishiguro que estava a ganhar pó num canto escondido da minha estante, restando-me penitenciar-me pelo muito tempo que demorei a dar-lhe uma oportunidade.

11 outubro 2017

A problemática do lugar 3C

O lugar 3C é o pior dos lugares onde se pode viajar num voo de médio curso, ali estamos nós e os nossos raviolli de salmão selvagem com carpaccio de veado fumado, tudo acompanhado por um bom vinho tinto, depois de termos repetido o espumante servido à temperatura certa, e o passageiro do lugar 4D implorando em vão e pela terceira vez um copo de água sem gás, espreitando pela frincha da cortina que nos separa, a nós quase nos apetecendo estender-lhe discretamente o pãozinho de sementes de papoila que não nos faz falta, ele arregalando muito os olhos ao vislumbrar o nosso estalar de dedos, chamando a atenção da assistente de bordo para o facto de a quantidade de vinho tinto no nosso copo estar abaixo do aceitável, requerendo acção urgente ao nível de verter mais uns centilitros, o do lugar 4D simulando uma necessidade urgente de visitar os lavabos, nós pressentindo que a motivação é apenas aspirar o ar que se respira nas primeiras três filas, observar como nos assentam bem os guardanapos imaculadamente brancos, abotoados no primeiro botão da nossa camisa também branca, o nó de gravata aligeirado, enfim, uma maçada, uma verdadeira maçada viajar no lugar 3C.