20 abril 2018

Está de volta o post das oito

Gosto de afastar a ementa em vez de colocar os óculos que ficaram em casa, de ler blogs de antigamente, de tentar explicar coisas da física num guardanapo de papel, de fazer de conta que não sei onde deixei as coisas (mas sei), de arremessar pinhas e ver o meu cão ir buscá-las ao meio das giestas, de tomar banho de água fria, de carros que andam depressa mas travam bem, de cantar músicas do José Cid quando ninguém está a ver, de jogos que o Sporting ganha nos penalties, das músicas do Streets of Fire quando conduzo em rectas do Alentejo, do Musée d'Orsay quando não estão lá chineses, de estar a ler muitos livros ao mesmo tempo, de jantar sozinho em Madrid e acompanhado no Porto, de pessoas que me abraçam com força, de comer fruta das minhas árvores, que me perguntem se preciso de alguma coisa e eu respondo que não, até amanhã, de cerveja gelada bebida pela garrafa, do sketch do "homem a quem parece que aconteceu não sei quê", de perder um jogo de xadrez com pessoas a quem eu ensinei as regras.

Não gosto do Berlin (do La Casa de Papel) nem de ir e vir a Londres no mesmo dia.

19 abril 2018

Em verdade te digo, Ruben Patrick

Quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, em vez de te recordares daquela tarde remota em que teu pai te levou para conhecer o gelo, escolheres recordar-te dela, não relevarás os humores demasiado voláteis nem a incorrigível atracção que ela tinha para músicas ruins, eliminarás das tuas memórias a maneira quase enternecedora como ela ensaiava manipulações deliciosamente primárias, olvidarás os dias de silêncio que ela te reservava cuidando que te castigava (e tu a beber gin e a fumar Cohiba Lanceros...), sequer recordarás as pequenas tropelias com que ela escolhia fazer-se notar nos momentos mais inoportunos dos teus dias demasiado ocupados.

O que recordarás, jovem Ruben Patrick, é que ainda não te apareceu outra que se batesse como ela.

15 abril 2018

Post muito lindo escrito numa manhã em que era para ir andar de bicicleta mas afinal não

Às vezes subo as escadas do sótão, escolho ao acaso um livro que me acompanhe nestes dias de chuva, sento-me com vista para as bátegas grossas que regam a tangerineira que plantei no domingo passado e às vezes escolho um livro comprado há muito num alfarrabista que se calhar já não existe e às vezes o melhor do livro são os sublinhados do antigo dono do livro, por exemplo, os deste Dostoievski são escritos a tinta permanente, há partes em que a página seguinte serviu de mata-borrão, quase me emociono a pensar que pessoa será essa que escreve a tinta permanente em Dostoievski, anotações que fazem tanto sentido que me fazem ler "O Jogador" duma maneira diferente de todas as outras, como se fosse levado numa nova direcção, cada página é uma piscadela de olho de alguém que não conheço, mas que deixou, como se fosse uma pista, um marcador que é um bilhete para "Turandot" no São Carlos, ainda no século passado.

14 abril 2018

Se...

... todos os semáforos estiverem verdes desde o Campo Grande ao Rossio, se o Manuel Fernandes marcar um golo amanhã no Restelo, se os Pink Floyd passarem na Rádio Amália, se Fermina não fizer esperar Florentino, se o homem do café se lembrar que eu não preciso de açúcar, se Ilsa Laszlo não embarcar no avião para Lisboa, se eu acabar Ulysses esta semana, se me ocorrer onde raio guardei o vinil da Paixão Segundo São Mateus, então sim, ponderarei aceitar esse convite para me explicares nem sei bem o quê.

Esta noite sonhei com Lamborghinis roxos

Não é por causa do cheiro a ambientador de pinho que penduras no retrovisor do carro demasiado potente para as tuas mãos, não é por causa do Paulo Coelho que me pareceu ter vislumbrado num relance dos interiores da tua mala, não é por causa de deixares o telefone em cima da mesa enquanto jantas no melhor restaurante que por estes dias há em Lisboa, não é por preferires as águas quentes de resorts demasiado caros às montanhas que demoram a subir, nem sequer é por começares as frases com "é assim...".

Nunca tentes entender a minha lógica, ela é de geometria variável.

11 abril 2018

Os problemas das mulheres

Usarem fotografias dos bons velhos tempos para se apresentarem nas redes sociais.

(acreditando que nós não acrescentamos, com um sorriso benevolente, as mazelas que faltam...)

De cada vez que ouço dizer nas notícias...

...que Moscovo fez não sei quê, pergunto-me sempre como é o tipo consegue ter tanta influência estando fechado na Casa da Moeda.

09 abril 2018

Em verdade vos digo

Um homem que faz com que Jorge Jesus pareça um gentleman é um homem que lá terá o seu valor.

25 março 2018

Spoiler alert

La Casa de Papel não é a melhor série que já vi.

24 março 2018

(this is not a typical love post)

No tempo em que as tempestades não tinham nomes politicamente correctos, um masculino e a seguir um feminino (reparai na misoginia do que ali atrás está escrito, está o post no princípio e já se percebe de matéria é feito o autor) no tempo em que as tempestades não tinham novidade, aquilo era só chuva grossa e vento forte, coisas da época, ninguém sabia que existiam alertas vermelhos e amarelos, nesse tempo, os homens de bem preparavam uma boa remessa de lenha de azinho, verificavam se não havia telhas soltas, fechavam bem as janelas e ficavam-se por casa a ler jornais do fim de semana ou livros de autores que demoram muito tempo a ler, talvez abrissem uma garrafa de boa aguardente velha ou fumassem um Partagas enquanto pensavam nas coisas em que os homens de bem pensam nos dias de chuva e abriam a janela só para ouvir melhor a ventania e o dilúvio.

(não é como agora, que escrevem posts a explicar como se fazia nos tempos antigos)

17 março 2018

Há demasiados livros semi-lidos na minha vida neste preciso momento

Pudesse eu ter um super-poder, desses que ainda não tenho, e havia de escolher a capacidade de olhar para um livro e saber imediatamente se a leitura seria uma pura perda de tempo, o super-poder faria com que o conteúdo do livro me entrasse pelo cérebro dentro e, num milésimo de segundo, integrava o meu tempo disponível no curto prazo para dedicar à leitura, a minha predisposição para a temática, a minha potencial embirração com o pouco poder de síntese do autor, a minha lendária aversão às palavras mal alinhadas, havia de descontar o efeito do título apelativo e da capa artística.

Era tanto tempo poupado, senhores.

13 março 2018

Cento e catorze anos de Pipoco, o que perdeu uma aposta

Em verdade vos digo, as coisas são como são, parece que é só prantar retratos para vos mostrar o que vejo da minha janela, mas não, ele são os problemas das mulheres, as problemáticas das situações, aquilo dos ajuntamentos de mulheres que nunca dá resultado de valor, são pássaros-alfa sobrevoando tanganíticos lagos, são as montanhas que se sobem, o Sporting que, enfim, não fossem as comentadoras, sempre gentis, sempre graciosas, mesmo as menos entusiastas com a minha obra, as preciosidades que às vezes chegam na forma de comentários certeiros e não sei o que seria deste que vos escreve.

Pipoco Mais Salgado, a escrever o mesmo post vai para setenta e nove anos.

12 março 2018

Parecendo que não, isto do Pipoco faz amanhã noventa e sete anos

E uns dias têm sido melhores, outros piores, se há ocasiões em que me parece que um blog não me faz falta nenhuma, outras há em que me parece que mal também não faz, há dias em que isto são só coisas minhas, outros há em que quase me apetece partilhar situações, mas, tivesse eu que resumir o que aprendi nestes anos todos de blogs, havia de dizer-vos que mesmo as moças mais retorcidas, mesmo as que parece que por cá andam só para aborrecer toda a gente, mesmo as só escrevem para dizer que fulana não sei quê, mesmo as das vidas simples que nos querem fazer crer que não vestem menos que muito caro, mesmo as mais empedernidas nisso de não serem amigas umas das outras, mesmo as que dizem que fazem e acontecem, todas sem excepção afinal o que querem é que gostemos delas e não lhes regateemos o nosso colo aconchegante, que as ouçamos com carinho, que lhes digamos que no fim tudo vai correr bem, que as tranquilizemos com um sorriso na caixa de comentários.

08 março 2018

São seis horas nos Açores, mais uma hora no Continente

E nada de posts a explicar-nos que o dia se comemora por causa do tal incêndio e outros posts a desdizer, informando-nos que isso do incêndio é tão verdade como aquela situação das pedras no caminho e do castelo ser do Pessoa, nada de posts a proclamar que o dia é uma vergonha e outros posts a argumentar que o dia pode ser uma vergonha mas mais vergonha é ser ainda necessário um dia destes, nada de posts delicodoces de homens românticos com odes às mulherais virtudes nem de contra-posts de mulheres inflamadas a reduzir posts delicodoces ao seu devido lugar.

Está mudado, isto do mundo dos blogs.


Apostando no sete azul

O homem da gravata Hermès, olhou-me nos olhos enquanto me apertava a mão, sorriu e disse-me que não acreditava que eu conseguisse, que era contra sua vontade que me entregava tanto risco, que lá estaria para me recordar as suas palavras sábias no exacto segundo em que a coisa não me corresse como eu disse que ia correr.

As pessoas que estavam à volta da mesa asseguram-me que o homem da gravata Hermès disse apenas "Boa sorte".

07 março 2018

O essencial, Ruben Patrick...

...é que saibas que elas são sensíveis aos que transformam o supérfluo em coisa essencial, que tenhas consciência de que valorizam a ciência rara de transformar o que parece importante em coisa difusa, que  jamais olvides que elas preferem o encantamento à realidade.

O importante, Ruben Patrick, é que te transformes num alquimista do desejo.

04 março 2018

Todos os lugares novos têm os seus fantasmas

O tipo com cabelo penteado para trás, ar de rufia dos anos oitenta, mas que conhece os sítios onde se come a melhor açorda de ovas com safio, o senhor antigo que me estende retratos a preto e branco para me mostrar como era o sítio antes de ser o que é agora, a rapariga de óculos demasiado grandes que me sorri e me explica como funciona a máquina do café, o homem sem nome a quem todos se referem como "o seu antecessor".